Blog do músico, que aborda os mais diversos assuntos: música, literatura, cinema, futebol, viagens, pensamentos, enfim, mais um espaço cibernético aconchegante para se trocar idéias... bem vindos!
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Eu também não aceito!
Agora resta-nos encontrar uma saída para que finalmente tais atos sejam devidamente coibidos e punidos, com rigor e sistematicamente (e não apenas eventualmente). A falta de escrúpulo que corre 'livre, leve e solta' pelos porões do poder é sem dúvida vergonhosa, estarrecedora.
Mas parece que não se sabe o que fazer contra isso; "Panelaços"? abaixo-assinados pelo país? manifestações em redes sociais?
O fato é que a opinião pública e toda sua indignação - mesmo quando amplificada e ecoada pelas mídias em geral - não parece surtir efeito, ou ser capaz de abalar o sistema de atuação e 'pose' desse pessoal, que continua praticando todos os delitos como se nada fosse (assim, deslavadamente e com muita desenvoltura).
E a velha política de conchavos, dos acordos espúrios, do 'benefício próprio', continua firme e forte.. sempre escorada por 'leis' e 'emendas' que eles mesmos votam, aprovam, legitimam. Parece piada, mas não é. 'Voto secreto'?? O que está fazendo Renan Calheiros na presidência do Senado?? Como ficar impassível a tudo isso?
Pois é, mas parece que há anos continuamos assistindo a tudo isso, cada vez mais anestesiados, impassíveis, inertes: "é.. tá tudo errado, mas fazer o quê?".
O quê? Não sei, mas sei que NÃO podemos aceitar essa situação nos mantendo de certa forma como meros espectadores de um sistema mesquinho, nefasto, corrupto com que se 'representa' o povo e nosso país. E aqueles que disso tiram beneficío permanecem cheios de pose e belas palavras, como se por trás de seus discursos 'éticos' e generosos não se escondessem intenções nada nobres (muitas vezes, das mais baixas e vis possíveis). Esse filme, que já um Clássico indigesto para todos nós, precisava sofrer drásticas alterações em seu roteiro.
Evidente que reconheço, com alegria, avanços notáveis em relação a diversas frentes - tanto social como economicamente.. mas uma coisa não justifica a outra - o fato de o Brasil estar menos miserável não pode se tornar um passaporte para que automaticamente todo e qualquer tipo de bandidagem nos bastidores seja legitimado (seguindo a lógica maquiavelica de que 'os fins justificam os meios): 'Olha, o Brasil está melhor, o que mais vocês querem?" - queremos 'meios' que se justifiquem, para além de seus 'fins' - honestidade e transparência é o que queremos ( por mais ingênuo que isso possa soar).
É por isso que além de votarmos, precisamos cobrar dos nossos eleitos, dentro da Câmara, do Congresso, da Esplanada; a tal 'ética' e eficiência pregadas por eles em suas campanhas; os princípios e a 'correção' de que tanto se 'orgulham' em seus comícios.
O Brasil pode e deveria ser mais.
Certa vez um economista escreveu que "se a corrupção é um 'freio de mão puxado' no desenvolvimento de qualquer país, o Brasil vem literalmente andando com seu freio de mão puxado há tempos, e essa corrupção, lenta e irreparavelmente, acabará por aleijá-lo".
Justamente por gostar tanto daqui, e por ver que tanta coisa boa poderia e deveria estar já visível em nossos Horizontes (além do que já é real), faço esse desabafo.
p.s. achei bastante oportuno o texto abaixo assinado por Roberto da Matta.
EU NÃO ACEITO!
por Roberto da Matta
domingo, 5 de agosto de 2012
Bela homenagem
sexta-feira, 25 de maio de 2012
A wised man
stay hungry, stay foolish,
and maybe that's the answer for
all the majors questions in life..."
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Para refletir/ Conheça seu parlamentar.
E a (assustadora) assiduidade de Senadores e Deputados no congresso:
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Gil & Miles
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Why?
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Nada como o tempo.

Vejam que curioso:
Se alguém mencionasse hoje, em qualquer roda no Brasil (ou fora!), o nome de Alfredo da Rocha Viana Filho, nosso querido "Pixinguinha", o que lhes viria à mente?
Provavelmente a figura daquele que foi um dos maiores compositores da história da música popular brasileira, um dos pais do choro moderno, enfim, um dos 'grandes', certo?
Não podemos deixar de notar que em suas músicas não se encontra um caráter perfeitamente típico. A influência das melodias e mesmo do ritmo das músicas norte-americanas é, nesses dois choros, bem evidente. Este fato nos causou sérias surpresas porquanto sabemos que os compositores são dois dos melhores da música típica nacional.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Lennie Dale e os Dzi Croquettes
Os depoimentos do filme compartilham de uma idéia que acredito ser a pura realidade - de que quando alguém desenvolve Arte no grau de entrega e verdade em que aquele grupo desenvolvia - não existe a menor possibilidade de se tentar reproduzí-la, justamente por ser tão genuína, própria do(s) seu(s) criador(es) - tão intransferível quanto um RG, ou uma impressão digital.
Outra coisa: se por um lado o artista virtuose quase sempre é um obcecado pela busca da excelência artística, é também fundamental que tenha um ingrediente de loucura e irresponsabilidade no ato da criação, seja ela qual for.
Embora não fosse nascido quando os Dzi Croquettes apareceram, entendo e respeito profundamente o impacto que causaram com sua postura, conceito artístico e coragem!
segunda-feira, 30 de maio de 2011
The Guitar Heroes & Benedetto
É sabido que a Italia teve um papel fundamental na história da fabricação de instrumentos de cordas, principalmente à partir do sec. XVI. A Luthieria era um ofício "de familia", passado de pai para filho através das gerações (havia famílias incríveis no ramo de luthieria em Milão, Veneza, Bologna, Florença, e Cremona, terra do inventor do violino, Andrea Amati, e também de Antonio Stradivari, talvez o mais famoso luthier da história).
No final do século XVIII, Nápoles era não só uma das maiores cidades da Península Italiana, mas de toda a Europa, e havia por lá uma cena musical extremamente prolífica. A Escola de Ópera Napolitana de Alessandro Scarlatti, a Ópera "Buffa", assim como alguns dos mestres pioneiros da guitarra clássica, Ferdinando Carulli e Mauro Giuliani, tiveram todos em Nápoles seu cenário inspirador.
A primeira 'guitarra' de seis cordas fôra criada pelo napolitano Gaetano Vinaccia, em 1779 (conhecida como "guitarra romântica"), e nesse interim, algumas famílias napolitanas, como os próprios Vinaccia e os Fabricatore, passaram a introduzir técnicas modernas e inovadoras à fabricação de bandolins e guitarras. Com o tempo, Nápoles tornou-se o mais importante centro na produção de instrumentos de cordas da Itália, posição em que permaneceu durante todo o sec. XIX.
Em 1880, um grupo espanhol chamado "Estudiantes Espanoles" excursionou os EUA tocando suas bandúrrias, tornando -se uma verdadeira sensação! Rapidamente, os músicos italianos imigrantes trataram de capitalizar aquele sucesso estrondoso dos "Estudiantes" e logo começaram a formar grupos locais, imitando a trupe espanhola que tocava música de raíz, apenas substituindo as bandúrrias por bandolins.
Entre 1880 e 1920, houve uma verdadeira febre por estes instrumentos nos Estados Unidos, onde milhares eram importados da Itália.
Há pouco tempo atrás tive a alegria e honra de participar ao lado de Anthony Wilson, Julian Lage e Steve Cardenas de um concerto, como parte de uma enorme homenagem a alguns dos mais fantásticos construtores ítalo-Americanos de guitarras archtops da atualidade. O evento chama-se "The Guitar Heroes", e alguns dos homenageados - os ítalo-americanos John Monteleone, James D'Aquisto, John D'Angelico - todos luthiers extraordinários, tiveram seus instrumentos expostos no evento. No concerto usamos quatro guitarras especialmente construídas por Monteleone para a ocasião, executando uma peça também escrita especialmente por Anthony Wilson: "The Four Seasons", e posso dizer o seguinte - as guitarras eram realmente fantásticas, foi um prazer muito grande experimentar cada um dos quatro modelos, muito próprios, personalíssimos.
domingo, 22 de maio de 2011
Nice evening in SP
sábado, 30 de abril de 2011
Emerson String Quartet, or Octet??
Funciona assim; o extraordinário Emerson String Quartet, dos USA, toca uma peça supostamente para Octeto, inteira ( no caso, o Octeto em Mi Maior op. 20, de Mendelssohn), gravando a primeira passada. Depois disso, eles gravam em cima de si mesmos uma segunda passada ( até aí... trata-se de um procedimento normal e amplamente utilizado para se "engordar" sessões de cordas). Mas aí vem a grande diferença: cada um dos instrumentistas, em sua segunda passada, utiliza um segundo instrumento, o que obrigatoriamente faz com que sua própria sonoridade se modifique totalmente, assim como a do quarteto em geral. E por outro lado emula-se uma coesão e precisão inacreditáveis.
Some-se isso uma captação de som de última geração, e o resultado é esse que vocês podem conferir abaixo: fantástico!
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Ed Tomassi

Recentemente revisitei uma velha amiga, de invernos frios e musicais... após muitos anos de ausência e saudades - Boston, MA.
-"You wanna play good, practice slow... you wanna play better, practice slower"
- "you gotta play everything in every key! even your name!!"
- "You gotta swing me out of this room, then you gotta swing me out of Berklee, then you gotta swing me out of Boston, and if you manage to swing me out of New York that means you know how to swing!"
- "slow to fast cats, slow to fast!?"
sexta-feira, 4 de março de 2011
Remakes

Assim como quando vejo alguns políticos prometendo maravilhas na televisão, tenho certa desconfiança pelos remakes de filmes e afins, por princípio (sei que a comparaçao pode parecer um pouco esdrúxula, mas é verdade, pois há em mim um sentimento de "é difícil acreditar, até que se prove o contrário").
Fora algumas esparsas exceções, a grande maioria das refilmagens não se sustenta quando comparada às versões originais correspondentes. Além de no mínimo serem marcantes (até por ser mais improvável um remake de um filme inespressivo), há ainda o apego emocional, a memória afetiva.
Filmes como Lolita ( Kubrick, 62'/ Adrian Lyne, 97') , Asas do desejo (Win Wenders, 87'/ "Cidade dos Anjos", que não é remake mas baseado no primeiro), Psicose (Hitchcock, 60'/ Gus Van Sant, 97'. Este dirigiu entre outros Good Will Hunting, um lindo filme), para mim, estariam nessa lista.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Poema Sinfônico
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Luizão Maia.

Há pouco estava em um restaurante com amigos quando uma canção que adoro, de um de meus discos prediletos, começou a tocar ao fundo: "Bye Bye Brasil", de Chico Buarque.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Internet & Copyrights - enfim a democracia?

Outro dia comentava com um grande amigo músico como está difícil ouvir música nas rádios e tvs abertas. Estou aqui me referindo à música "não comercial" - ou àquela programação que 'em teoria' (mas só em teoria), não se encaixa nos 'padrões' de mercado (justamente a que ouço no meu ipod, invariavelmente).
Mas aí é que está, não falo dos artistas menos 'famosos' (embora não menos geniais) como J.T Meireles e os Copa 5, Donga, Bola 7, ou João da Bahiana, mas de nossos 'medalhões' - Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo, Moacir Santos - que há tempos são simplesmente ignorados pela grande maioria das estações ou, nas poucas que ainda são 'tocados', não o são suficientemente.
A coisa é mesmo grave... ou melhor... seria - parece que finalmente a luz acaba de surgir forte no fim do túnel.
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Há alguns dias, ao receber em casa o demonstrativo trimestral de recolhimento de direitos autorais e conexos, deparei-me com um tópico novo, já com direitos a serem recebidos, que indicava: "execução em internet".
Aquilo me deixou 'encafifado', pois nunca antes havia recebido sobre execução em internet no Brasil (inclusive cheguei a pensar que pudesse ser algum engano do ECAD!).
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Pois bem, abro o Estado de São Paulo de hoje e, ao ler a notícia abaixo, quase abro um vinho para brindar, logo de manhã - não era equívoco nenhum.
Ainda que timidamente, foi dado início ao repasse dos famigerados 'direitos sobre execução em internet', algo recentíssimo, até há pouco inédito no país.
Por isso mesmo, é claro que ainda existe um longo caminho de adaptações e ajustes pela frente, especialmente em um país como o nosso onde a legislação de direitos autorais e os órgãos que a aplicam em geral são nebulosos e obsoletos... e de fato não caminham de mãos dadas com compositores, intérpretes, artistas, enfim.
Mas a notícia, em si, é fantástica e animadora!
E o mais importante de tudo, e o que realmente me deixou contente, foi testemunhar o gosto dos internautas ali impresso, absolutamente alheio à programação padrão de rádios e tvs - muito mais plural, brasileiro, democrático! Afinal, na internet cada um ouve o que quer, quando quer, e da forma que quer.
Vejam que maravilha (atentem-se à lista dos autores, intérpretes e músicas mais tocadas!):
O Estado de São Paulo - "Pela Primeira vez, Música na rede recebe direitos"
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Texto release 'Até amanhã'
Ao acompanhar mais de perto o trabalho e a fantástica trajetória de Ricardo, claramente nota-se que, além do extraordinário instrumentista, trata-se de um grande compositor e arranjador, lírico e original, qualidades essas impressas em seus diversos discos solos - Skylight, Bom de tocar, Amazon Secrets, Smallworld, Storyteller, Noite Clara, Outro Rio.
Ele tem uma maneira absolutamente peculiar de tratar o ‘tocar’ e o ‘compor’,como dois universos independentes, mas que se encontram e se harmonizam perfeitamente. Isso é raríssimo, especialmente em um instrumentista desse porte.
Sendo um craque absoluto, um virtuose em seu instrumento, Silveira improvisa com total fluência, sempre de forma muito expressiva e eloquente, e domina de forma inpressionante tanto a linguagem brasileira do rítmo e da poesia como a americana dos encadeamentos harmônicos.
Por outro lado, como compositor, seus alicerces vêm da grande canção brasileira. Mesmo quando envernizadas pelo Choro, Jazz, funk, folk ou rock, as composições de Ricardo revelam-nos um cancionista apaixonado.
Após escutar ‘Até Amanhã’, os primeiros sentimentos que me vieram foram os de surpresa e gratidão.
Surpresa pela absoluta reinvenção de cada um dos temas já conhecidos, e aqui regravados.
As faixas foram revestidas em arranjos e performances que as
tornaram atemporais; seja pela concepção de base, toda gravada
‘ao vivo’ por um ‘power-trio’, com o qual Silveira vem excursionando ultimamente e construindo uma cumplicidade e afinidade incríveis;
Seja pelos arranjos sofisticados e inventivos de Vittor Santos, Marcelo Martins, Jessé Sadoc e dele mesmo, ou pela sonoridade belíssima do CD,bem acústica e fiel, sem muitos efeitos.
Gratidão, pois trata-se de um disco de celebrações – aos amigos, às parcerias, ao violão e a guitarra, à brasilidade, à própria música e
à vida, e Ricardo gentilmente nos convida a todos a participar desse
evento na mais privilegiada das condições – a de degustadores da
música resultante desse encontro especial.
Talvez por isso mesmo ‘Até amanhã’ seja tão profundamente
generoso com os instrumentistas e arranjadores participantes. Traz
fundamentalmente o melhor de cada um, pois coloca-os sempre à
vontade dentro de suas especialidades (e aqui, o mérito é do Ricardo produtor).
Se Ricardo Silveira já consagrou-se como uma indiscutível e imensa referência em seu instrumento pelo mundo afora , neste projeto nos
mostra que o grande artista nunca se acomoda em seus próprios
louros - ao contrário, reinventa-se, ousa, arrisca, inquieta-se.
E é justamente exercendo esta qualidade inerente aos grandes, que
Ricardo acerta mais uma vez, em cheio - com este golaço de placa.
Vida longa a este grande artista e a este novo projeto, ‘Até amanhã’!
Chico Pinheiro
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Is this virtual?
sábado, 31 de julho de 2010
'Uma Noite em 67'

Não assisti ainda ao documentário sobre o Festival da Record de 1967, de Ricardo Calil e Renato Terra, que estreou ontem nos cinemas aqui em São Paulo.
Um grande amigo cineasta foi à pré-estréia no Rio e me ligou entusiasmado; estava emocionado com os depoimentos dos protagonistas Chico, Caetano, Edu, Gil.... afinal, que fotografia incrível aquela - um momento especialíssimo na música popular brasileira, independente de regime político, religião, economia ou futebol vigentes... falo da música.
No entanto, acho curioso que em todas as reportagens e comentários nos jornais fala-se muito da emoção intensa, da rivalidade acirrada que se instaurou entre as torcidas (levada quase às últimas consequências), do clima à la "gladiadores", de toda aquela guerra, enfim, do 'entorno' que abarcava a disputa musical em si. Um bom exemplo disso é a famosíssima cena de Sérgio Ricardo, quebrando o violão e bradando "vocês ganharam, vocês ganharam!!". depois de atacar os primeiros acordes e tentar em vão entoar "Beto bom de Bola", tamanha a vaia ensurdecedora com que o público lhe saudaria naquela noite.
Falam do cunho político que havia no ar envolvendo todo o evento, das roupas extravagantes e desafiadoras de Caetano e Gil, Rita Lee e os Mutantes, do bom-mocismo de Chico, da sofisticação de Edu e Marília Medalha.
Todos sabemos da barra pesada que aquele pessoal enfrentava na época, inclusive naquele ano específico ( meus pais mesmo contam histórias inacreditáveis) e que, infelizmente, precedia algo ainda pior, o Ato Institucional Nº5, o AI-5 ( 1968).
Porém, sob a ótica musical, artística, faltou falar de um protagonista fundamental, que nenhum dos jornais mencionou devidamente, nenhum.
"A última noite do Festival de Música Popular Brasileira de 1967 foi um desses raros momentos que condensam e catalisam as forças vivas de toda uma cultura (...) um caldeirão de elementos díspares numa rara e irrepetível sinergia: o berimbau e a guitarra elétrica" Folha de São Paulo.
É verdade. Mas faltou mencionar que o grande responsável pelas guitarras elétricas em "Alegria Alegria" e "Domingo no Parque", assim como pelos elementos claramente eruditos contidos nos arranjos destas canções foi Rogério Duprat.
Ele foi o amálgama, aquele que deu a "roupagem" daquelas canções, e posteriormente à própria Tropicália ( essa afirmação não é minha; Caetano e Gil já o disseram várias vezes).
Seus arranjos, absolutamente imprevisíveis e criativos, juntavam Stravinski com guitarra, berimbau com Stockhausen, mas nunca aleatoriamente, tudo fazia sentido. Rogério foi, sim, um dos personagens principais daquele festival e do que viria depois, como desdobramento desse.
"Colocar guitarra elétrica na MPB era de direita. Os artistas de raiz, contrários à guitarra elétrica, eram de esquerda. Houve um radicalismo, um clima de Fla-Flu Musical", Estado de São Paulo.
Quando Jimmi Hendrix usou sua Fender Stratocaster em pleno Woodstok ( 1969) para genialmente protestar contra a guerra do Vietnam, tocando o Hino Nacional Americano todo entrecortado por sons de bombas simuladas no instrumento, a guitarra naquele momento não representou nem um pouco o status de simbolo do "Imperialismo", mas sim seu mais ferrenho opositor.
Na minha opinião, à sua maneira e guardadas as devidas proporções, Duprat faria o mesmo ao reunir patrícios e argentinos (Beat Boys) para tocar música brasileira, usando guitarras elétricas e orquestra sinfônica em plena repressão, numa época em que 'internet' era, quanto muito, um fetiche de filme de ficcão científica (portanto não podendo escancarar "globalização" nenhuma). Isso não era para qualquer um.
Entendo perfeitamente que à primeira vista, aos olhos e ouvidos daquele público, qualquer coisa made in USA não fosse bem aceita (pudera!), mas Rogério mirava muito além de uma rasa apologia ao imperialismo Ianque. Muito pelo contrário. Era um ato bastante corajoso, contestador, mas sobretudo bem humorado em meio àquele clima de guerra. O maestro, afinal, era um tremendo gozador! Apenas com arranjos e postura artística mostrava o quão era possível esparramar-se por universos tão díspares, dialogando de forma original e provocativa, sem no entanto deixar de ser brasileiro ou coerente. A arte então transgredia e se sobrepunha a tudo, inclusive nacionalidades.
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Esse teor agregador e ao mesmo tempo desafiador do Duprat me lembrou um outro fato, atual e fantástico (embora esse não tenha nenhuma relação com o festival de 1967)- Daniel Barenboim e Edward Said, um judeu e um palestino, um maestro e outro intelectual, dois expoentes de peso em suas respectivas áreas, juntaram-se para criar a West-Eastern Divan Orchestra que, através da música, coloca judeus e árabes tocando sob a mesma pauta, lado a lado. Impensável?
E alguém ainda duvida de que a música tem, além de tudo, o poder intrínsico de elemento transformador, revolucionário e evolutivo, mas sorrateiramente encrustado apenas em melodias, acordes, arranjos e versos?
Ou como diria Guimarães Rosa: "o Diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto!"
Vivam os arranjos, melodias, acordes e versos de Rogério Duprat, Jimmi hendrix, Baremboim e Said.
domingo, 27 de junho de 2010
Zenon
Acabei voltando para o Brasil em 1999, mas meu amigo Miguel Zenon foi mesmo para Nova Iorque, onde continua até hoje, tocando e encantando por onde passa com seu saxofone, seja na SF Jazz Collective, com Antonio Sanchez, ou com seu próprio grupo.
Uma vez, fazíamos aula de de 'ear training' (os outros "freshmans", isto é, alunos de 1º semestre da classe eram Anat Cohen, Avishai Cohen e Alon Farber - éramos em 5) e havia um teste - solfejar um solo das décadas de 50, 60 ou 70, à escolha... nota por nota, dois chorus completos.
Lembro-me bem de ter escolhido um do Claudio Roditi que me pareceu solfejável, melódico e sobre uma harmonia que conhecia bem. Anat, se não me engano, escolheu um Wayne Shorter de VSOP. Já Zenon chegou com a trascrição de um Coltrane debaixo do braço, era "Ascent" ou coisa assim- algo praticamente impossível, sobretudo pela enorme dificuldade em se pronunciar aquelas notas todas, tamanha a velocidade. Todos nós nos entreolhamos quando ele 'sacou' a partitura e anunciou o tema e a versão escolhida.
Bom, para encurtar a história, logo no final do primeiro Chorus, estávamos todos caindo das cadeiras, de tão bizarra a cena, inclusive o professor. Ele REALMENTE estava solfejando, com nomes e tudo, e o grau de dificuldade para se pronunciar as sílabas naquela rapidez "lá - dó - mi - sooool - dó - dóoo", era algo surreal - nunca me esqueço desse episódio.
Recentemente ouvindo o último cd dele, aliás fantástico (Esta Plena), me emocionei. Zenon é craque!!




